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domingo, 18 de setembro de 2011

PROTAGONISMO JUVENIL

A juventude, enquanto objeto de intervenção é um tema instigante. Ser jovem para nossa sociedade sugere, por um lado, esperanças, perspectivas de futuro; por outro suscita preocupação e apreensão quando se observa que boa parte da juventude brasileira encontra-se em condições desfavoráveis e só consegue vislumbrar o resgate de sua liberdade e autonomia através de ações transgressoras e atos de vandalismo que muitas vezes desembocam na violência criminalizada. Isso se agrava mais ainda quando tais ações são fortemente estigmatizadas por órgãos, como a imprensa, que em vez de noticiar os fatos de forma ideologizada, poderia assumir uma postura educativa que contribuísse para uma melhor compreensão da questão .


Uma das contribuições para uma possível mudança nesse quadro seria a possibilidade de ampliação dos espaços de cidadania para esses jovens por parte da imprensa e da sociedade. Os jovens não devem ser identificados apenas por sua precária situação de vida ou por estarem em situação de risco social ou pessoal. Faz-se necessário deixar de ver o jovem como um problema, que atrapalha o desenvolvimento, e vê-lo como uma solução à pobreza e à exclusão. Devem ser vistos como um grande potencial que tem o nosso país e a nossa cidade. Como atores capazes, competentes e ativos. É preciso valorizar a juventude e confiar na sua capacidade de tomar e assumir decisões, responsabilizá-los por coisas importantes, de suas vidas e de sua comunidade.
Através da educação é possível vislumbrar um futuro melhor para os jovens se a concebermos na perspectiva que aponta Garcia que ver "(...) o educando como sujeito da educação (...) [dando] ênfase e destaque ao processo de transformação das pessoas, sua interação dialética com a realidade. É importante que o educando [o jovem] participe, pense, interaja, desenvolvendo suas capacidades intelectuais e consciência social. O educando é sujeito do processo", E aqui acrescentaríamos: é protagonista.

Assim, o protagonismo juvenil é o papel ativo dos jovens em sua educação, no resgate de sua cidadania, exercendo-a em sua comunidade, construindo uma sociedade mais justa e igualitária.

Nesse raciocínio, o que caracteriza e qualifica uma experiência educativa positiva com jovens é a escolha bem sucedida de atividades a serem implementadas com e pelos jovens. Essas atividades dar-se-ão a partir de uma estratégia que pretende investir na educação integral dos jovens. "E educar deve ser compreendido não como um repasse sistemático de conhecimentos assimilados, estáticos e prontos. Educar é facilitar a formação de indivíduos com visão dinâmica, criadora, cultural e humanista, capazes de promover mudanças. É facilitar a interação entre os agentes/atores respeitando-se e desenvolvendo-se conjuntamente como seres humanos, dotados de direitos individuais indisponíveis, e, principalmente, de responsabilidades para com o coletivo.
Educar é apresentar aos outros o seu modelo de conduta, de atitudes e comportamentos. Ninguém ensina o que, realmente, não é, não sente ou não acredita" . Nesse sentido, é preciso estabelecer relações pessoais e uma atenção individualizada nas relações entre o educador e o educando. Esse diálogo individualizado é que fará a diferença, pois, fará os jovens perceberem o quanto são especiais e que nós também percebemos e valorizamos isso.

É nesse tipo de relação mais pessoal que os jovens se sentirão tratados como pessoas e não como mais um entre muitos. Dessa forma, os jovens se abrem, falam de sua vida e de sua família, de seus sentimentos e torna-se possível identificar e trabalhar os talentos de cada um.

A convivência permitirá aos agentes envolvidos no processo, perceberem os 'códigos' que regem as relações do grupo, suas experiências, seus interesses e seus sonhos. Procurando os "interesses" e as "linguagens" que refletem o imaginário dos jovens de hoje do meio popular, que serão nosso principal alvo.

A experiência em comunidades de algumas entidades parceiras deste projeto revela que o acerto na escolha desses caminhos é apontado por diferentes indicadores: a motivação dos jovens em participar; a perseverança; as transformações no comportamento no grupo, na família e na comunidade; fruto de uma auto-valorização dos outros; a abertura para a compreensão dos problemas da comunidade; a vontade e o investimento em melhorar seu próprio desempenho.

A atenção a esses elementos subjetivos do processo educativo e das relações pessoais e sociais estará incorporada e traduzida nas ações e metodologias, pois, a educação aberta que se pretende implementar visa potencializar as diferentes dimensões da personalidade do educando e expressa também a leitura atenta que estes educadores devem fazer das mudanças sociais e das novas exigências (formação polivalente, especialização) que essas mudanças impõem.

Pautarmo-nos nesses princípios implica depararmo-nos com a relação autoridade/liberdade/disciplina. Entendemos que a autoridade dos educadores não será questionada, será aceita e reconhecida quando conquistada pela capacidade dos mesmos de conduzir o processo, e não quando imposta por uma posição de poder hierarquicamente definida. A disciplina aceita será aquela que explicada, definida coletivamente e cuja necessidade pode ser comprovada. Disciplina não deverá ser uma imposição de alguém, mas uma imposição do projeto, do objetivo que o grupo quer atingir. Isso pressupõe necessariamente que o projeto seja do grupo e não de um educador ou de um líder.

Para completar e abrir um pouco mais esta questão da relação entre autoridade/disciplina e liberdade, citamos Paulo Freire: "...tanto quanto possível, seja no campo do adulto quanto no campo dos meninos da criança, o respeito à liberdade e assunção da autoridade para o educador, devem se orientar no sentido de propor ao educando adulto ou não, o exercício de sua capacidade de pensar, criar e ajuizar o exercício de sua capacidade de ler o mundo e de escrever sobre a leitura que faz do mundo. Isto é uma coisa que vem fazendo uma falta enorme na pedagogia brasileira." (Alfabetizar é preciso) - FASE/Itabuna).

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